O Desafio Emocional

No ano passado meu enteado mais velho foi pego com drogas e enviado para a cadeia. Acabamos nos falando pelo telefone e tivemos uma conversa incrível. Nós dois choramos, pedimos perdão, e uma cura genuína foi acontecendo. Tem sido uma caminhada e tanto desde que eu o conheci quando ele ainda era criança.

Era uma manhã ensolarada e revigorante de fevereiro de 1999. Uma linda moça loira e seus dois filhos pequenos de cabelos castanhos escuros entraram no salão da minha igreja. Eu, imediatamente, soube no meu íntimo que ela era a mulher com a qual eu iria me casar.

Carol e eu nos casamos em dezembro daquele mesmo ano. Seus dois filhos tinham 2 e 4 anos na época. Eu não tinha filhos até então, mas logo acrescentamos mais crianças à mistura.

Ao entrar no casamento, estávamos muito otimistas. Tudo daria certo. Estávamos apaixonados. Eu tinha a convicção que precisava tratar todas as crianças da mesma forma. Para mim, éramos todos uma só família. No entanto, não demorou para que as feridas do primeiro casamento dela viessem à tona. Rotinas comuns desencadeavam o medo que ela tinha da traição. Ela se lembrava dos dias em que o ex dela planejava os encontros amorosos com outra mulher e de como ele colocava roupas limpas, fazia a barba, e se esforçava para aparentar a melhor forma possível. Então, quando eu me arrumava melhor para ir ao trabalho no governo, lembranças dolorosas e dúvidas borbulhavam em sua mente. Eu também poderia traí-la?

Eu realmente não estava preparado para o desafio emocional. Estava ferido e com raiva por ela pensar que eu seria capaz de ter um caso com alguém. Acho que isso afetou meu papel como padrasto. A partir da minha dor, fui duro demais, às vezes, nas minhas advertências e correções na criação dos meninos. Queria ter feito um trabalho melhor ao lidar com minhas emoções e ao abrir meu coração para entender a dor que tanto ela quanto os meninos estavam sentindo.

Leia a história da minha esposa – Família Misturada: Cuidando dos Feridos

Houve uma perda tão grande. Uma boa parte da alma deles foi destruída quando a família foi despedaçada. Meu enteado mais velho e eu levávamos a vida, mas eu percebia que existiam questões mal resolvidas – especialmente, um sentimento de traição por causa do pai dele. Porém, como seu padrasto, eu achava que não era meu papel ajuda-lo a processar aquilo.

Eu sabia que não poderia substituir o pai deles. Tentei estar presente e ajudar da melhor maneira que podia, mas sabia que nunca poderia preencher aquele vazio. Apesar de rirmos juntos, brincarmos e nos divertirmos, não é a mesma coisa que eles terem esses momentos com o pai deles. Hoje eu entendo a importância de ajudar os enteados a também terem experiências assim com o pai biológico, se for possível.

Inclusive, houve uma época que ficou evidente que o pai deles estava fazendo a cabeça deles contra mim.

Nos primeiros anos, os meninos iam a cada três semanas para a casa do pai. Eu sempre os levava. Era difícil deixá-los ir porque não confiávamos que o bem-estar deles era prioridade na outra casa. Eu me via conjecturando e ficava desconfiado sobre o que estava acontecendo por lá. Por exemplo, mesmo os advogados desaconselhando, o pai tentou, diversas vezes, levá-los para morar com ele.

Em um determinado dia, eles ligaram para mudar o local de encontro onde eu deveria buscá-los de tal forma que ficasse mais conveniente para eles. Contudo, depois de viajar mais de seis horas e ficar preso no engarrafamento por causa do novo trajeto, cheguei tarde demais e eles já tinham ido embora. “Você não apareceu”, disseram mais tarde. Então, eu fiz as seis horas de viagem novamente dois dias depois – iniciativa que eles não estavam esperando. Eu estava determinado a não permitir que eles minassem o acordo de moradia pré-estabelecido.

Quando você assume a posição de padrasto, com frequência, você se torna um desafio para o pai biológico – fazendo coisas que ele acha que ele deveria estar fazendo. Eles podem começar a transferir a raiva deles para você. Houve, inclusive, uma época que se tornou evidente que o pai do meu enteado mais velho estava fazendo a cabeça dele contra mim. Era algo que estava em completo desacordo com o comportamento do meu enteado. De onde eu via, sentia que o pai biológico estava se aproveitando da vulnerabilidade e lealdade do filho.

Quando os meninos finalmente se mudaram para viver com o pai deles, ao final da adolescência, eles começaram a se envolver com drogas e a ter outros comportamentos destrutivos. Eu sabia que o pai deles estava mentindo para mim sobre algumas coisas. Foi muito difícil não guardar ressentimento e raiva no meu coração. A única coisa que ajudava era liberar em oração – e até orar pelo pai deles. Era difícil odiar alguém por quem eu orava. Eu não ia deixar que minha raiva em relação a ele ferisse minha própria alma e família.

Meus enteados e eu estamos melhor agora. Ocorreram curas significativas. Porém, ainda há momentos em que eu sou o para-raios para a dor e a raiva deles. Eu entendo isso, não vivo sentindo pena de mim mesmo nem pensando que nunca mais vai se repetir. Vai acontecer de novo; preciso aceitar como estão progredindo na jornada deles.

Negligenciar teria sido bem mais fácil, em especial, para minhas emoções, mas meu amor pelas crianças não me permitiria isso.

Eu gostaria de recuperar alguns dias. Queria pegar de volta algumas atitudes e abordagens. Deveria, provavelmente, ter tentado relaxar um pouco mais e não ser tão desconfiado. Porém, eu tinha essa paixão e preocupação com os meninos, e ainda tenho. Negligenciar teria sido muito mais fácil, em especial, para as minhas emoções, mas meu amor pelas crianças não me permitiria isso. Por outro lado, me envolver significava que, às vezes, eu era detalhista e tentava controlar demais as coisas. Eu empurrava minhas opiniões para a Caramel e os meninos mais do que deveria em algumas ocasiões, ao invés de respeitar a decisão deles.

Percebi como é importante aproveitar os recursos como família para vivenciar todas as emoções, dores e confusões. Alguém de fora, neutro, pode ajudar bastante a ordenar as coisas de tal forma que você faça escolhas das quais não se arrependerá mais tarde. Se você está se sentindo inadequado como padrasto, saiba que não está sozinho. É um trabalho extremamente difícil que, frequentemente, parece impossível. Caso você queira deixar suas informações abaixo, um de nossos mentores, de maneira gratuita, entrará em contato o quanto antes para encorajar e apoiar você.

Leia a perspectiva da minha esposa sobre nossa família misturada.

Crédito de la foto: Lola Media