Cuidando do Ferido

“Sabe, mãe, o sangue é mais grosso que a água.” As palavras bateram fortemente em mim. Foram difíceis de ouvir. Meu filho de 22 anos estava comentando sobre sua criação e o tom era claro: você deveria ter me priorizado acima do seu novo marido.

Apesar de acreditar que a melhor coisa que posso fazer para assegurar a sensação de segurança dos meus filhos seja colocar meu marido em primeiro lugar, eles eram crianças. Ao entrar em uma família misturada, eles processavam e viam as situações de maneira diferente. Quando me casei com Tom, era, de certa forma, natural para os meus dois meninos, com 2 e 4 anos na época, pensar que eles eram mais importantes e deveriam receber mais a minha atenção. Evidentemente, dezoito anos mais tarde, alguns daqueles sentimentos ainda persistiam.

Quando estávamos planejando o casamento, nos sentíamos preparados. Tínhamos uma perspectiva ingênua e idealística. É óbvio que desafios nos aguardavam, mas havíamos estudado e pensávamos que bastaria aplicar o que tínhamos aprendido. Contudo, Tomás não estava preparado para todos as emoções que encararíamos, e logo percebi que eu não tinha superado completamente a dor de abandono e traição advinda do meu primeiro casamento.

Leia sobre a experiência do Tomás como padrasto.

Minhas feridas começaram a nos causar dor. Dúvidas a respeito da fidelidade do Tomás me assombravam. Ele nunca me deu motivo para pensar que me trairia, mas ainda assim eu tinha dificuldade para confiar plenamente nele. Às vezes, quando ele se arrumava pelas manhas, e se vestia melhor para o trabalho no governo, eu temia que, como meu ex que se arrumava todo antes de um encontro, ele estaria, na verdade, planejando se encontrar com “alguém”. Isso afetava as crianças também. Na dor e no sofrimento, Tom, às vezes, era excessivamente crítico com os meninos.

Havia muito o que resolver. Tínhamos que lidar com sucessivos conflitos entre meu ex e eu, a crescente tensão em nosso casamento, e logo tivemos mais filhos. A vida nunca foi tranquila. Até situações aparentemente simples, como planejar as férias ou o Natal, podiam se transformar em grandes desentendimentos.

Quando ouço alguém dizer que o pai dos seus filhos não se envolve com nada, parte de mim pensa: “Ah, como isso seria bom.”

Eu fui a principal responsável pela custódia dos meus filhos na maior parte dos anos de criação deles. Tom levava os meninos para a casa do pai biológico deles, e, em um determinado momento, isso exigia seis horas de viagem, o que o preocupava bastante. Sou muito grata por ele ter se disposto a fazer isso. Nunca tivemos uma relação conciliadora entre meu ex e a esposa dele. Ela era a mulher com a qual ele havia me traído e, depois, casado, então eu tinha pouca disposição para cultivar um relacionamento com ela. Tom tentou falar com ele algumas vezes. Talvez pudéssemos ter nos empenhado mais. Não sei.

Com o passar dos anos, meu ex tentou convencer os meninos a irem morar com ele. Diversas vezes, ele nos levou ao tribunal na tentativa de garantir a custódia. O juiz analisou a situação todas as vezes e decidiu que era do interesse deles permanecerem comigo como principal cuidadora. Parecia que meu ex estava constantemente tentando minar nossa autoridade em suas vidas. No fundo, sua maior motivação parecia ser a de não precisar pagar a pensão alimentícia. Ele queria ter mais recursos para sua nova família.

As batalhas judiciais foram extremamente onerosas para todos nós. Por um lado, Tom queria me deixar cuidando disso sozinha, mas, às vezes, ele tinha vontade de entrar lá e tentar controlar todo o resultado. Os meninos estavam cientes disso, então ficavam estressados também. Correndo o risco de ser excessivamente transparente, quando ouço alguém dizer que o pai dos seus filhos não se envolve com nada, parte de mim pensa: “Ah, como isso seria bom”. Eu sei que meus filhos precisam do pai deles, mas a situação certamente ficou complicada e emocionalmente desgastante para todos nós.

Chegou ao ponto dos meninos desejarem morar com o pai deles. Na adolescência, eles começaram a falar sobre as liberdades que o pai deles prometia e como os limitávamos. “A casa do pai” se tornou “a grama mais verde”. Teve uma hora que eu disse ao Tom: “vamos simplesmente deixar os garotos irem.” Eu estava tão cansada da disputa. Apesar de achar que não seria o melhor para eles, esperava que se dessem conta e quisessem voltar para casa.

Meu filho mais velho me disse algo revelador no verão passado: “Eu não deixei você saber de muitas dores que eu sentia.”

Meu filho mais velho tinha dezessete anos quando foi morar com o pai. O irmão dele fez o mesmo quando completou dezesseis anos. Depois de um ano, meu filho mais velho saiu do controle, se envolveu com drogas, e foi expulso de casa no dia que fez dezoito anos. Os dois estão em reabilitação por toxicodependência e recebendo aconselhamento. Desde então, ambos retornaram para morar conosco por períodos diferentes.

Meu filho mais velho me disse algo revelador no verão passado: “Eu não deixei você saber de muitas dores que eu sentia.” Acho que muitos enteados são bons em esconder suas feridas emocionais. É preciso um responsável muito sábio para estar ciente do que está acontecendo por debaixo da superfície. Aprendi que não posso simplesmente esperar por aqueles momentos raríssimos em que vão derramar seus corações para mim.

Preciso ser intencional em criar espaço para realmente ouvir. Isso exige muita humildade, pois estou me abrindo para ouvir coisas que não quero ouvir. Significa estar disposta a ser um para-raios para suportar um pouco da dor deles, porque estou segura – mesmo que a situação pareça tóxica.

É difícil, mas também tivemos que aprender a nos desapegar um pouco emocionalmente. Estamos aqui para eles. Isso não vai mudar. No entanto, isso ajuda a entender que, agora, eles são adultos lidando com suas próprias mágoas. Não há um cronograma definido para esse processo ser resolvido.

Ao olhar para trás, penso que teria sido sábio da nossa parte ter encontrado alguém – uma parte neutra – em quem meu filho mais velho pudesse confiar. Queria que tivéssemos sido intencionais e buscado aconselhamento enquanto família para, juntos, ajudarmos a processar algumas das questões. Ele está agora em uma situação, por causa do vício em drogas, onde ele é obrigado a ser aconselhado e revelar a dor que ele vinha tentando tratar. Talvez ele estivesse em um lugar melhor agora se tivéssemos buscado isso antes.

Ter uma família misturada não é tarefa fácil. Há camada após camada de complexidade. É desgastante. Se você está lutando para ver além da neblina e da dor disso tudo, quero que saiba que não está sozinho(a). Temos mentores para ouvir e oferecer apoio a você de maneira confidencial. Deixe suas informações para contato abaixo e um membro da nossa equipe entrará em contato com você o quanto antes.

Leia sobre a experiência do Tom como padrasto.