Morando com o inimigo

Quando nós estávamos namorando, ele se jogava aos meus pés com presentes caros e jantares em restaurantes chiques. Olhando para trás, percebo que perdi alguns sinais de que ele poderia se tornar abusivo: ele culpava os outros pelos seus erros; ele costumava "dar um gelo" quando estava zangado com alguém; ele tinha um temperamento volátil - ou volúvel.

Infelizmente, eu fui criada em um lar onde havia violência doméstica, então esse tipo de comportamento parecia normal para mim.

Os primeiros cinco anos do nosso casamento foram bons. Ele era doce comigo e tivemos nossos filhos. Nos próximos cinco anos eu me tornei infeliz, mas não sabia o motivo. Ele começou a me controlar em pequenas coisas, e para manter a paz, eu o permiti. Durante os cinco anos seguintes, ele começou a me dar gelo sempre que estivesse zangado.

Os próximos quatro anos foram ainda piores. Ele intensificou essa maneira de me tratar, com silêncio, às vezes fingindo que eu não existia por meses. Ele também passou a restringir minha liberdade se estivesse bravo comigo.

Ele abusou de mim me chamando por nomes pejorativos e palavrões, mandando em mim, e se irava comigo por uma hora ou mais. Ele abusava de mim psicologicamente, fazendo com que eu duvidasse da minha sanidade. Ele podia jurar que coisas as quais eu me lembro nunca aconteceram. Ele era tão convincente que às vezes eu me perguntava se realmente me lembrava do que havia acontecido. Ele abusava de mim emocionalmente, dizendo que eu era uma péssima esposa e mãe, que ele me odiava, e que os seus amigos tinham pena dele por ter se casado com uma tremenda bruxa.

Mesmo estando infeliz, eu não queria deixá-lo pelo fato de haver saído de uma família divorciada, e eu sabia o quanto aquilo era doloroso para as crianças. Eu também levava meus votos de casamento muito a sério, não queria quebrá-los.

Então chegou o dia no qual ele disse que queria que eu morresse. Depois que ele saiu de casa, eu sentei na mesa sem palavras. Ele teria sabotado meu carro ou seria apenas uma brincadeira? Eu estava aterrorizada e não sabia o que fazer. No dia seguinte, ele novamente entrou na cozinha enquanto eu estava comendo e disse "Qual a sensação de saber que eu quero que você morra?" eu disse, "não muito boa". Ele deu um sorriso de canto da boca com tom de satisfação, e saiu.

Alguns dias depois ele me bateu. Essa foi a gota d’água. Eu arrumei as minhas coisas e fui para um hotel. Eu encontrei com o meu pastor e pedi ajuda. Ele foi muito compassivo e disse que ligaria para o meu marido e falaria com ele. EU voltei para casa alguns dias depois.

Depois que o nosso pastor soube o que estava acontecendo, meu marido não voltou a me bater. Mas ele me jogava no chão durante uma discussão para eu não poder sair do quarto. Ele também chegou a me trancar fora de casa sem sapatos e sem casaco no frio, e puxava as minhas cobertas enquanto eu dormia. Quando eu disse que estava com palpitações, ele disse "ótimo, talvez você tenha um ataque cardíaco e morra".

Eu descobri depois que todas essas coisas eram consideradas abuso físico. Durante esse tempo, ele insistiu que eu dissesse aos nossos filhos que ele nunca tinha abusado de mim. Mas eu não consegui fazer isso. Eu sabia que era mentira e não queria que os meus filhos achassem esse comportamento normal.

Eu comecei a procurar por uma definição para ‘abuso' para poder mostrá-lo e dizer "Olha, você tem abusado de mim todo esse tempo". Mas eu não achei nenhuma definição sucinta. No desespero, eu liguei para o “DISQUE 100”. Eu falei com a atendente e ela me confirmou que eu estava sendo abusada e me direcionou a um centro de ajuda a mulheres em crise, onde falei com uma psicóloga. Eu disse porque não queria deixar o meu marido. Ela me ajudou a ver que o meu marido já havia terminado o nosso casamento com suas ações, e se eu me separasse dele estaria apenas tornando pública aquela situação, até então privada.

Ela me deu o número de uma advogada que cuida específicamente de violência doméstica. Eu disse à advogada que estava procurando um apartamento porque meu marido se recusou a sair de casa. Ela disse "Ah não, você não vai sair, ele que vai." quando eu disse que ele não queria sair, ela disse que quando eu tivesse um mandato de restrição contra ele, ele sairia.

Seis semanas após a ligação para o “DISQUE 100”, eu estava pronta para agir. Me dirigi até o Fórum onde encontrei minha advogada e contei a juiza todos os abusos cometidos por meu marido contra mim e meus filhos. Eu consegui uma Medida Protetiva que o impedia de chegar perto de nós. O juiz também adicionou meus filhos ao mandato, para protegê-los. Naquele mesmo dia, eu peguei meus filhos na escola. Então liguei para a polícia e um policial nos acompanhou até em casa para garantir que o meu marido não estaria lá dentro esperando por mim, eu sabia o que ele poderia fazer. Eu troquei e tranquei as fechaduras das portas, da garagem e coloquei alarmes de segurança.

Nós enfrentamos um divórcio horrível. E pelo fato de eu ter fingido que tudo estava "bem" por 20 anos, meus filhos não entendiam o porquê de eu ter colocado o seu pai para fora de casa. E eles ainda não entendem.

Isso foi a 11 anos. Eu me juntei ao grupo de apoio à violência doméstica e recebi muito aconselhamento individual. Eu estudei para me tornar uma advogada e ajudar pessoas que sofrem violência doméstica e agora ajudo a outras vítimas como eu.

Eu caminhei uma longa jornada até minha cura. Eu conheci e me casei com um homem amoroso que me trata muito bem e nunca abusou de mim. Nós dois temos filhos, então temos que lidar com muitos problemas para adaptar nossas famílias. A vida não é fácil, mas isso é muito melhor do que a vida de constante abusos que vivia com meu ex-marido.

Se você é vítima de violência doméstica, você não precisa enfrentar isso sozinha. Uma de nossas voluntárias online irão amorosamente acompanhá-la nessa jornada. Por favor deixe as suas informações para contato abaixo, e nós entraremos em contato com você assim que for possível.

Crédito de la foto: Nadja Tatar