Assustados demais para ter uma criança

Paola: Nossa resolução de Ano Novo para 2015 foi a de termos um filho. Isso podia parecer algo simples para alguns, mas para nós era uma grande meta. Não havia garantia.

Camilo: As chances de termos um filho eram mínimas. Quando eu tinha dezoito anos, fui dar uma volta com um amigo, quando o nosso carro bateu fortemente na lateral de outro, rolou e eu acabei preso no chão com metade do meu corpo ainda dentro do carro. Minha coluna estava quebrada e eu estava paralisado do meu peito para baixo. Casais lutam contra a infertilidade por diferentes razões, mas, para nós, é por causa da minha paralisia nas pernas.

Paola: Então, quando começamos a namorar e ficamos noivos, eu sabia que, provavelmente, nunca teríamos filhos. Eu não queria acabar frustrado, então nunca deixei de ter esperança. A vida não era ruim. Estávamos curtindo nossa vida conjugal e nos estabelecendo em Toronto, para onde nos mudamos de Atlanta. Era natural que minha irmã mais velha tivesse filhos antes de mim, e eu estava até bem quando minha irmã mais nova teve pela primeira vez, mas quando ela teve seu segundo bebê há quatro anos, isso realmente me abalou: eu quero muito ter uma família. Se eu não fizer algo logo, será tarde demais e não vai acontecer com certeza. Farei quarenta anos em breve. Pensei muito em ter uma família, mas estava realmente poupando meu coração, porque as chances eram contra nós.

Camilo: Foi quando começamos a verificar nossas opções de fertilização in vitro. Encontramos bons empregos, então começamos a economizar dinheiro. Custaria entre vinte e trinta mil dólares. Sabíamos que todas as nossas economias estavam indo para algo que poderia não funcionar.

Pensei muito em ter uma família, mas estava realmente poupando meu coração, porque as chances eram contra nós.

Paola: Parecia um investimento de alto risco. O dinheiro poderia ser uma entrada para nossa primeira casa. Nossas chances de sucesso eram muito, muito pequenas. Mas eu não queria ficar olhando para as paredes de uma casa grande um dia, lembrando constantemente que nunca tentamos – que eu poderia ter tido um bebê.

Camilo: Passei por um procedimento especial em uma clínica para colher meu esperma. Eles levaram três amostras, mas a notícia não foi animadora. Apenas alguns em um milhão estavam vivos, e mesmo aqueles estavam com mobilidade zero. Eles disseram que as chances eram muito baixas, mas que poderíamos tentar. O especialista em fertilização sugeriu um procedimento em que eles amaciariam as bordas externas dos óvulos e empurrariam cada espermatozóide para dentro. Sabendo que nossas chances eram baixas, escolhemos uma das melhores clínicas de São Paulo, embora fosse mais cara.

Paola: Quando eles explicaram o processo pelo qual eu passaria, fiquei muito assustada, porque teriam que me dar muitas injeções e hormônios que afetariam bastante o meu corpo. Eu pensei: “E se eu passar por tudo isso e não funcionar?” Então esperamos mais um ano. Quando chegou o mês de janeiro, fizemos nossa resolução de Ano Novo para termos um filho.

Eles começaram comigo imediatamente. Tive que tomar muitos remédios para aumentar a quantidade de óvulos que meu corpo liberaria. Eu estava bastante preocupada com os efeitos colaterais, mas meu corpo aceitou muito bem os tratamentos preparatórios. Produzi vinte e oito óvulos, que foram coletados. Desses, dez eram de má qualidade, restando dezoito. O médico fertilizou dez óvulos com esperma congelado e congelou os outros oito, caso o primeiro tratamento não funcionasse.

Então esperamos pelos telefonemas.

Na primeira ligação, eles nos disseram que sete haviam morrido. Dois dias depois, ouvimos que mais um estava morto. Restavam apenas dois. No quinto dia eles ligaram novamente. Não havia embriões vivos. Esse foi o meu pior momento. Fiquei arrasada e deprimida. Eu me senti sem esperança nenhuma. Não sabia se poderia passar por todo o processo novamente.

Camilo: Esse foi o meu momento mais sombrio também. Tinha me acostumado a aceitar minhas limitações, mas naquele momento eu tive que enfrentar novos sentimentos de fracasso – de não ser homem suficiente ou bom o suficiente – de não poder dar a ela uma família como ela queria. Ela estava tão magoada e triste e eu não conseguia fazê-la feliz.

Paola: Mas não queríamos desistir, então tentamos novamente com esperma fresco. Nesta segunda fase, eu estava realmente tentando proteger meu coração, tentando não pensar em ter bebês. Eu lhes disse para não me ligar – para chamar o Camilo. Eu viajei para ficar com a minha família na Colômbia em busca de apoio. Eu estava com muito medo de ouvir más notícias de novo.

Camilo: Uma vez que eles fertilizaram os oito óvulos restantes, esperei pelos telefonemas.

“Cinco morreram...” “Mais dois morreram...” “Só resta um.”

Paola: Então o médico me ligou diretamente. Ele estava muito animado: “Este é um óvulo bom. É realmente de alta qualidade.” Camilo me ligou e disse: “É melhor você voltar logo para que eles possam introduzi-lo em você!”

Foi uma espera de três dias para ver se eu ficaria grávida.

De volta a São Paulo, eles me deram mais remédios para preparar meu corpo para aceitar o embrião congelado. Quando chegou o dia em outubro, assistimos em uma tela enquanto colocavam o embrião no meu útero. Pareciam bolhas quando a seringa foi injetada. O médico disse que nosso embrião estava evoluindo como esperado. Então foi tudo para o meu corpo para ligá-lo à parede do meu útero. Os médicos não têm domínio sobre isso.

Foi uma espera de três dias para ver se eu ficaria grávida. E fiquei!

A primeira semana correu bem. Eu ainda estava grávida. A semana seguinte também foi boa. Mas nos disseram que tínhamos que esperar três meses antes de podermos dizer com confiança que estávamos esperando um bebê e poderíamos contar às pessoas.

Camilo: Nós estávamos levando um dia de cada vez, tentando não ter grandes expectativas. Ainda estávamos com medo e nervosos. As chances naquele momento ainda eram de 50%. Depois de cada consulta, onde eles diziam “Você ainda está grávida”, respirávamos aliviados. No final das contas, o prazo de três meses foi 31 de dezembro de 2015. A resolução de Ano Novo se tornou realidade no último dia do ano!

Paola: Esse foi o melhor dia da minha vida. Foi um enorme alívio e muita alegria. Nós ainda tínhamos que fazer isso dia após dia, mas não era tão estressante. Nós pudemos relaxar e compartilhar as novidades! Houve muitas complicações com a minha gravidez, mas nossa filha, Antonia, entrou em nossas vidas em 9 de julho de 2016. Ela está agora com seis meses de idade.

Ter um grupo de apoio de familiares e amigos foi uma ajuda incrível em nossa jornada. Pudemos compartilhar nossas esperanças, medos e dúvidas, o que tornou as coisas muito mais fáceis de suportar. A infertilidade pode ser algo muito difícil de se compartilhar abertamente. Se você se sentir sozinho(a) individualmente ou como um casal nessa luta, saiba que não precisa continuar assim. Preencha suas informações abaixo e alguém da equipe de mentores entrará em contato com você em breve para acompanhá-lo(a) em sua jornada.